Por Celso Deucher

Nossa história de libertação do Sul vem de longe… Nascemos todos Guarani e Ges… De muitas povos e nações… Vinhamos ao mundo Guaianás, Ibiraiaras, Caaguás, Arachãns, Carijó, Tapes, Pampeanos, Kaiguangues, Xocklengs, Charruas, Caiuas, Minuanos, Mbyas, Xiripas, Xetas, Guenoas, Yaros, Mboanes e Chanás, entre tantos outros. Falávamos várias línguas e muitos dialetos… Tínhamos nosso próprio modo de vida. Nossa casa era a imensidão do mar verde da floresta Sulista. Nosso teto sempre foi as galhadas majestosas das araucárias. Éramos livres e não admitíamos que ninguém nos tolhesse o direito de andar e viver em plenitude em nossa própria terra.

Desde o dia em que o espanhol Vicente Yanes Pinzon, em 1499, aportou nas terras mais tarde chamadas de Brasil, nosso modo de vida passou a ser ameaçado. Logo viriam os aventureiros e súditos de reis e reinos distantes tentando impor a Povo Sulista uma outra cultura, sacrificando nossos usos costumes e tradições ancestrais. Com armas muito superiores as nossas, aos poucos foram tomando conta deste território, matando e expulsando os verdadeiros donos da terra… E por isto, como reação a esta usurpação, surge o sentimento de autodeterminação Sulista, que remonta o século XVI. Foram os chamados Movimentos nativistas de defesa da nossa terra e da nossa gente.

O primeiro e mais importante movimento organizado surgiu no que hoje conhecemos por Paraná e parte de Santa Catarina. Sob a liderança do Cacique Guayracá, primeiro herói Sulista. Formamos uma primeira Confederação de Aldeias e Povos e sob a liderança de Guayracá criamos um exército de mais de 100 mil compatriotas. Combatemos heroicamente de 1550 a 1601 os Espanhóis que pretendiam anexar este território. Enfrentamos e vencemos muitas batalhas, principalmente contra as tropas de Irala em 1554, de Nuflo de Chaves em 1555, de Alonso Riquelme em 1561, de João de Garai em 1576 e de Hermando Saavedra em 1601. Neste primeiro ciclo de lutas contra os invasores perdemos nos campos de batalha mais de 80 mil compatriotas. Mas ficou marcada a nossa divisa de luta, na frase do grande líder Guairacá: “Esta terra tem dono”.

A partir de 1601, aos inimigos do Sul juntam-se os portugueses, que também, nada mais queriam, que escravizar nosso povo e se apropriar deste território. Nós, através de uma aliança com os Jesuítas, criamos as primeiras missões guaraníticas e nelas construímos uma magnifica civilização. Objetivando a defesa deste território e de nosso povo, erguemos uma grande Confederação de Missões, que mais tarde ficou conhecida como a “República Del Guaíra”. Nesta organização social, criamos o comércio, as instituições jurídicas, as artes, a moeda, uma economia forte e pujante. O Sul floresceu com a expectativa de um grande futuro. De 1610 a 1628, foram fundadas diversas Missões. Entre elas, as que tiveram maior expressão estão Nossa Senhora de Loreto do Pirapó, San Ignácio Mini, San Jose, San Francisco Xavier, Nuestra Señora de la Encarnación, San Miguel, Jesus Maria de Guaraverá, San Antonio, San Pablo del Ivagy, São Tomé, Sete Arcanjos, San Pedro de los Piñares e Nossa Senhora da Conceição.

Sepé Tiarajú, herói Sulista.

Não tardou a repressão. Novamente, tanto espanhóis como portugueses passaram a tramar contra o Povo Sulista e atacaram nosso território. Lutamos heroicamente contra os Encomenderos espanhóis e os traficantes de escravos portugueses. Fomos cruelmente espezinhados pelos exércitos inimigos e praticamente dizimados. Em 1629, somente as duas maiores e mais antigas missões da Confederação estavam de pé: Nossa senhora do Loreto e San Ignácio Mini. Com nossos inimigos nos perseguindo e fechando cada vez mais o cerco, não tivemos outra opção, senão fugir. Foi uma fuga sofrida.

Construímos mais de 700 embarcações e através do Rio Paranapanema mais de 12 mil compatriotas tiveram que se arriscar para não ser chacinados. Na chamada “Marcha dos Catecumenos”, estes 12 mil irmãos foram praticamente dizimados por emboscadas, vítimas de inanição e de inúmeras doenças e agruras da mata virgem. Apenas 4 mil de nós chegaram em segurança as Missões de “Natividad del Acaray” e de “Santa María del Iguazú”, onde hoje se situa nossa valorosa cidade de Foz do Iguaçu. Em todo nosso território tombaram em batalha ou foram capturados como escravos, mais de 100 mil compatriotas.

Tempos depois, em 1632, nosso povo voltou a se reagrupar e criou novas missões desde o Rio Paraná até o Rio Uruguai, incluindo parte do Paraguai e Argentina. Era o renascimento do sonho Sulista através da construção de uma outra Confederação: Os Trinta Povos. Em território Sulista, fundamos os Sete Povos das Missões ou a Confederação das Missões Orientais. Faziam parte desta nova Confederação, São Francisco de Borja, São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista, São Luiz Gonzaga e Santo Ângelo Custódio. Através destas missões progredimos muito em todas as áreas do conhecimento humano. Honramos nossa terra ancestral construindo uma grande civilização.
Como de costume, nossa paz logo foi ameaçada, mais uma vez pelos dois reinos distante: Espanha e Portugal, que eram Brasil. Em 1750 estas duas potencias assinam o Tratado de Madri e sem nos consultar, decidem que as terras em que vivíamos passariam para o domínio Português, nosso principal inimigo naquele momento. Simplesmente recebemos a ordem para abandonar tudo e fugir de nosso próprio território.

Esqueceram que em nossa cultura as terras ancestrais são um bem inegociável e portanto não podem ter dono de além mar. Afinal os filhos da terra são os donos da terra. Em nossa fé e cultura, quando uma pessoa morre ela se transforma em terra. Portanto em nosso território estão nossos antepassados e por isto, esta terra é parte de nós.

O trabalho de demarcação das fronteiras se iniciou em 1753. De imediato, sob a liderança de nosso grande herói Sepé Tiarajú, organizamos a resistência e mais uma vez fomos a guerra. A peleia grossa se inicia em 1754 e segue até 1756. Lutamos contra dois grandes exércitos fortemente armados, mas sem honra. No dia 7 de fevereiro de 1756, na batalha de Caiboaté, nosso líder maior, Sepé Tiarajú, é covardemente assassinado. Neste mesmo dia, após a morte do líder, outros 1500 compatriotas foram chacinados.

Lutamos ainda mais três meses e em maio daquele ano, os exércitos inimigos se juntam na fronteira com o Uruguai e dizimam nossos batalhões de compatriotas. Mais uma vez, mais de 30 mil irmãos de luta perdem a vida peleando bravamente pelo nosso chão sagrado. Nossos filhos, esposas e velhos, que não morreram de fome, frio, doenças e ataque de animais bravios, fugiram para bem longe do alcance dos inimigos.

Neste dia 7 de fevereiro, completam-se 262 anos da morte de Sepé Tiarajú, nosso segundo grande herói da luta Sulista. Tantos séculos depois, cá estamos, lutando pela mesma causa em defesa da nossa terra e da nossa gente. Hoje organizados em um movimento de libertação, usamos a mesma divisa de guerra de Guairaca e Sepé e mantendo viva o grito: “Co Yvy Oguereco Yara”… Esta terra tem dono, por que o Sul é o nosso País. Basta de Brasília!!!

© Sul Livre 2018

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