diversidade

Por Jorge Ernesto Macedo Geisel*
“Nada mais prejudicial que uma ignorância em ação” – Goethe, em suas memórias.

Tolerância, como quase tudo na vida, pode ser ensinada. Não podemos confundi-la, entretanto, com a perda de discernimento sobre o belo, o útil e o necessário. Podemos ouvir um excelente “jazz”, como patrimônio cultural de expressão mundial e desligar, sem receio de errar, aquela semvergonhice de homenagem à boquinha da garrafa.

O problema da deformação cultural reside na aceitação espúria, imediata, de produção artística de baixos padrões morais, principalmente quando difundidas pelos centros nacionais de projeção política, considerados como pólos de integração cultural. Quando uma sociedade inteira assiste passivamente, anos a fio, as contorções públicas de nádegas e pélvis ao som de música nacional vagabunda, além do predomínio esmagador de uma enxurrada de obras estrangeiras de péssima qualidade, estará sendo instruída a tolerância cultural ou, simplesmente, as pessoas estarão sendo condicionadas ao hábito para fugir às tradições e costumes adquiridos durante uma longa gestação histórica de valores regionais, em benefício das novidades que trazem pontuações de Ibope nacional, mas com o prejuízo da contínua descaracterização das novas gerações, cuja herança encantada das diversidades culturais subnacionais será descartada para formar um país atolado nas mediocridades?

A integração cultural de um país continental como o Brasil, não deveria estar alheia à propagação do que há de legítimo em matéria de produção cultural regional. O Brasil é feito pelos arranjos culturais dentro de seu espaço geográfico diversificado. Seria um absurdo, e os absurdos vêm a galope montados sobre interesses imediatos de ganhos fáceis como, por exemplo, a substituição da imagem viril e rústica do tropeiro clássico pelo “cowboy” de enxerto, o do “country boiadeiro”. Infelizmente, isto já passou a ser realidade no Sudeste. O Sul, ainda resiste com tenaz galhardia, mas, em compensação não tem suas obras culturais difundidas pelo grande eixo Rio-São Paulo, centros autônomos de articulação dos grandes negócios, que ditam os sucessos culturais e a domesticação dos antigos Brasis altaneiros. Até o Nordeste, com sua personalidade cultural forte, está gradativamente sendo pautado nas adaptações transgênicas exigidas por um “new wave” mercadológico, que acabará por mutilar os mais antigos valores regionais do País.

Não devemos confundir, entretanto, discordância manifesta com a intolerância proibitiva face os desvios culturais, protegidos pelas liberdades constitucionais de expressão. A civilidade democrática não imprime depreciações gratuitas, ao imenso leque de opções oferecidas pelos produtos regionais, nacionais e internacionais, sob as influências de um mundo globalizado. Mas os concessionários da mídia televisiva e radiofônica, deveriam impor a si mesmos limites, pelo menos, de moralidade pública, merecida pela audiência de seus programas, abertos ao risco de serem assistidos por qualquer idade. Caso contrário, mais breve do que se imagina, de Bagé a Itacotiara teremos o desprazer de fazer jús à pecha de “macaquitos” e outras coisas piores, a exemplo da notícia discriminatória, politicamente incorreta e ampliada por um “sapo barbudo”, de que Pelotas (Guaranhuns e outras cidades, talvez um pouco menos…) é a principal cidade exportadora de viados do país – um exemplo de assimilação de baixa cultura por parte de quem nunca foi instruído na escola, convenientemente, nem educado em casa, para exercer a civilidade e morar em centro intitulado como polo cultural de um país inteiro…

Por favor, não estamos condenando um festival boiadeiro, travestido de cowboy para consumo internacional e com resultados financeiros estupendos, maiores do que os arrecadados com o carnaval carioca. Apenas estamos chamando atenção para o desaparecimento dos valores da cultura tropeira original, que devem permanecer mais vivos do que nunca. Não se trata da postulação de uma política protecionista cultural em escala atentatória às liberdades individuais, mas apenas os cuidados de uma competência educacional que deveria ser exercida pelos Estados Federados, em consideração à permanência de seus próprios valores regionais e sub-regionais.

Cultura só é protegida quando praticada. Ou seja, quando é cultivada com amor, dedicação ao que seja oriundo de nossos antepassados. Cultura, não deve se destacar pelo desrespeito ao que seja dos outros. Não pode ser julgada. Cultura popular é o que é – fruto das motivações profundas da alma de um povo. Nascida ao acaso das coisas, sem constrangimentos oficiais ou ideológicos.

Cultura não é feita só de lendas, música e dança folclórica, vestimentas e acessórios, comidas… Também é artesanato, fruto dos folguedos do lazer artístico popular, produtivo, resultado do trabalho manual e mental, debruçado sobre as realidades de um grupo social humano distinto, adaptado à natureza de seu próprio meio ambiente, sem compromissos imediatos de unidade política, ou com as causas estranhas à observação dos fenômenos psíquicos da própria consciência comunitária, bafejada pela experiência social de sua formação histórica. Portanto, cultura também é o modo de pensar e de interagir, de ninarmos uma criança – um plano social sobre o qual é projetada a fusão das diferenças individuais, amalgamadas para a valorização das ações e reações do Homem face a Vida, diante o Criador. Face a si próprio.

* O autor é advogado no Rio de Janeiro.

Fonte: Diário de Cuiabá, 30 de março de 2017.