Em vida, Anita Garibaldi foi exemplo de coragem e de amor a terra e ao Povo Sulista. Após a morte, inspiração para novas e grandes revoluções.

Se perguntarem por Ana Maria de Jesus Ribeiro, poucos saberão quem é. Mas em qualquer parte do mundo que se falar em Anita Garibaldi, todos logo dirão: é a heroína de dois mundos. Nascida em 30 de agosto de 1821, em Laguna/SC (localidade de Morrinhos, hoje município de Tubarão), Anita é a maior e mais importante heroína Sulista.  Filha de pai Paranaense, Mãe catarinense e que teve seu primeiro filho no Rio Grande do Sul, Anita nos une na luta por um Sul Livre.

Anita faleceu no dia de hoje, 4 de agosto, de 1849, na Itália e no artigo abaixo, um dos principais especialistas em Anita Garibaldi, Adílcio Cadorin (Um dos fundadores e um dos principais idealizadores do Movimento O Sul é o Meu País), conta a história dos sete sepultamentos desta guerreira Sulista. Mostra que mesmo depois de seu falecimento, ela continuou gerando e inspirando revoluções, incluindo a libertação Sul Brasileira.

Persiste no sonho dos ativistas da causa Sulista, uma legitima vontade de trazer os restos mortais de Anita Garibaldi para descansar definitivamente em nosso sagrado solo Sul Brasileiro, afinal, 168 anos depois da sua morte, ela está viva entre nós.

Para ler o artigo na fonte e com fotos ilustrativas, acesse: https://adilciocadorin.blogspot.com.br/ Publicado hoje, sexta-feira, 4 de agosto de 2017.

 

ANITA GARIBALDI – A MORTE E SEUS SETE SEPULTAMENTOS

Por Adílcio Cadorin*

Itália – 2 de julho de 1849.

Sitiados no interior das muralhas de  Roma por um exército de cem mil homens, depois de muitos dias de batalhas e discordando do acordo que devolvia Roma ao Papa e extinguia a incipiente República Romana,   Anita, ao lado de Garibaldi e cerca de 4.700 legionários garibaldinos, iniciaram a histórica “Retirada de Roma”, cuja marcha se tornou célebre na história militar mundial. Na retirada, enfrentaram e combateram três corpos de tropas inimigas fiéis ao Papa: franceses, espanhóis e austríacos.  Ao sair de Roma, Anita apresentou sintomas de impaludismo e febre, mas recusou-se ficar para ser tratada e não deixou de cavalgar ao lado de seu companheiro. Passaram pelas cidades de Tivolo, Monte Retondo, Cesi, Orvieto, Ficulle, Cetona, Monterchi, Citerna, San Giustino, Monte Luna, Mercatello, Macerata  Feltria, e Carpegna.

Em 31 de julho, em San Marino, o general Garibaldi dissolveu a sua “Legião Italiana”, em respeito ao tradicional direito de asilo oferecido pela milenar República de San Marino. Ali Garibaldi redigiu seu histórico “Manifesto” aos legionários italianos, recusando o salvo conduto que lhe foi ofertado se depusesse sua espada. Após dissolver seu exército, na madrugada do dia primeiro de agosto, empreendeu  uma nova fuga. Partiu de San Marino, com Anita doente e um último grupo de 185 fiéis soldados, divididos em duas colunas dirigidas por guias sanmarinenses. Mesmo bastante debilitada pela febre, Garibaldi não conseguiu convencer Anita para ficar na cidade de S. Marino para tratar-se. Os dois grupos conseguiram filtrarem-se pelo cerco das tropas austríacas, e juntaram-se novamente ao norte do território da República de San Marino. Em 2 de agosto, acompanhado por poucos retirantes,  chegaram a Cesenatico, hoje Porto Garibaldi, às margens do Mar Adriático. Ali  embarcam em vários barcos à vela, chamados “bragozzi”, partindo à noite, com muitas dificuldades, em direção de Veneza.

Anita Garibaldi piorou visivelmente, aumentando a angústia do marido. Enquanto esperou  no cais de Cesenático que a maré permisse a saída dos barcos, bastante debilitada, Anita ditou sua última carta endereçada a sua irmã Felicidade. Quem escreveu foi seu confidente e  companheiro Padre Ugo Bassi: ‘“Cesanatico, 2 de agosto de 1849. Querida irmã:  Estou estendida no chão, exausta, no cais do porto de Cesenatico …  e quem está lhe escrevendo por mim é o padre Bassi,… Minha barriga parece estar ficando cada vez mais inchada e eu não estou sentindo nenhum movimento. Estou achando que meu filho está morto … acho mesmo que meu fim está próximo… continuamos a marcha rumo aos Apeninos, num sobe-e-desce de trilhas poeirentas que parecia não ter fim. Eu continuava a me arrastar atrás do cavalo e de vez em quando montava para descansar, apesar da dor na barriga …  ouvi tiros e vi atrás de nós, no vale, parte da nossa retaguarda se dispersando, tomada de pânico pela aproximação de uma patrulha de austríacos. Não sei como encontrei forças para reagir. Eu me levantei, montei no cavalo e fui a galope na direção dos fugitivos, para incitá-los a reagir. Mas não adiantou. Quase todos aqueles malditos covardes fugiram sem nenhuma vergonha … Lembro-me das mulheres (de Cesenático), ao meu redor, tentando me convencer a permanecer na cidade até ficar curada. …. E me aterrorizava pensar em ficar sozinha e morrer em terra desconhecida, sem nenhum rosto amigo. Quando o José (Garibaldi) entrou no quarto me dizendo a mesma coisa, comecei a chorar, pedindo que ele não me deixasse, que não me abandonasse … As mulheres de San Marino devem ter pensado que eu era louca… Agora estou aqui, no fim do caminho ! O que posso lhe dizer? Que faria tudo de novo ?  Acho mesmo que sim !… . Agora sou apenas um peso para todos, fazendo-os correrem o risco de atrasar sua fuga para a salvação …      Em todos estes anos, eu me entreguei a ele, aos filhos, aos nossos ideais comuns. Agora chegou o momento da necessidade, tenho que me humilhar para pedir ajuda, como uma criança … Irmã muito querida, queria poder abraçá-la, sentir você perto de mim… mas é tarde demais…”

No dia 3 de manhã as embarcações dos retirantes, já no mar, foram atacadas por navios de guerra austríacos. Garibaldi e alguns dos seus desembarcam na praia de Magnavacca, num istmo entre o Adriático e o Lago Comacchio. Anita, semi-desfalecida,  foi levada nos braços de Garibaldi. 160 de seus homens foram capturados  e muitos fuzilados.

Prevendo que  aquela orla litorânea logo estaria  repleta de soldados inimigos para os prenderem, Garibaldi ordenou  aos trinta  patriotas que com ele aportaram, que se dispersassem, o que foi feito.  Em Ariano, poucas horas após, foram presos 16 companheiros de Garibaldi, alguns dos quais foram fuzilados uma semana após em Tiepolo. Em Comachio, outros onze garibaldinos foram presos, fuzilados  no dia 8 de agosto  em Bolonha, entre eles o Padre Ugo Bassi.

 

Junto a Garibaldi e Anita ficou apenas o major Leggero, que recusou-se a abandoná-los, oferecendo sua mão e braços para ajudar a transportar Anita para local seguro.  Com o auxílio de um  homem da região alcunhado de Baramoro,  que assistiu ao desembarque,  Anita foi transportada através dos altos juncos e  de densa vegetação, sendo conduzida por cerca de mil metros para uma cabana de palha, habitada pela viúva Caterina Cavalieri, de idade avançada, que nada mais pode oferecer  a não ser água para matar a insaciável sede de Anita.   Ali permaneceram cerca de uma hora, pois a qualquer momento podiam ser descobertos pela milícia austríaca que os procurava vasculhando todos os recantos. Enquanto descansavam  o fiel Leggero saiu a procura de algum tipo de ajuda,  encontrando-se com o Coronel Gioachino Bonet,  conhecido de Garibaldi,  natural de Comachio, republicano e adepto garibaldino. Como era fazendeiro na região e tinha sido alertado por um  irmão de que o condottieri passaria pela região em direção a Veneza, ao ouvir os canhoaços dos barcos imaginou o que estava acontecendo, e saiu de sua casa  na tentativa de ajudá-los de alguma forma.  Foi ele o responsável por um espetacular plano de fuga, destinado a retirar Giusepe Garibaldi e Anita daquela  região, infestada por austríacos, à caça  de Garibaldi.

A primeira providência foi remover o casal para outro local, por caminhos não usuais, quase que intransitáveis, mesmo a pé, porém mais seguro. O novo esconderijo ficava distante aproximadamente dois mil metros. Anita não tinha mais forças para caminhar,  motivo pelo  qual   improvisaram uma maca, revezando-se Garibaldi, Leggero e Bonet nas pontas. No caminho encontram outro patriota, chamado Carlon, profundo conhecedor dos tortuosos caminhos entre os canais e pântanos da região. Também os  ajudou no revezamento da maca de Anita. Após o percurso o grupo chegou a casa de Giovanni Feletti, onde permaneceram das 10 horas da manhã até às  11:30 horas de 3 de agosto. Foram atendidos e cuidados pelas mulheres da casa, que desdobraram-se em gentilezas com Anita, dando-lhe  remédios caseiros e  muita atenção.

AS ULTIMAS HORAS DE VIDA  DE ANITA

Estes foram os últimos momentos de  consciência contínua de Anita. A partir de então, passou a ter ataques e convulsões, alternando entre desfalecimentos e momentos de lucidez.

Anita foi instalada deitada em um carro de boi. Bonet foi na frente para fazer os preparativos da chegada. Além de Leggero,  Felippo Patrignani acompanhou o casal. Após duas horas de incessante calor, em uma marcha bastante lenta para ser mais confortável para Anita e por temerem  encontrarem forças inimigas, chegaram à casa da família  Zanetto.

Legerro, Garibaldi e Anita embarcaram em uma canoa, com dois remadores por volta das 20:30 horas e durante quase toda a noite remaram pelos canais e lagoas, em direção a  sua  fuga, agora infletindo em direção sul, com objetivo de confundir e despistar ainda mais os austríacos, que os julgaram percorrendo direção norte. De madrugada, em local previamente determinado por Bonet, receberam mais uma canoa e os remadores foram substituídos por outros descansados, que os aguardavam. Porém, por volta das quatro horas da manhã, os remadores descobriram a identidade dos viajantes  que carregavam, e  amedrontados  pelas ameaças e fuzilamentos sumários que já tinham acontecido com quem colaborou com o casal Garibaldi em fuga, os abandonaram,  a despeito dos apelos que estes formulam. Os deixaram numa cabana rústica, feitas com capins, as margem  de um dos canais por onde navegaram.  Anita foi  acomodada da melhor forma possível no interior da cabana e os dois homens, sem meios e sem saber o que fazer,  quedam-se imóveis, a espera dos acontecimentos. Quatro horas depois, por volta das oito horas da manhã,  foram  socorridos pelos irmãos Michele e Mariano Guidi.    Às 17:30 horas  Anita foi colocada sobre uma charrete, que dirigiu-se para a Feitoria de Mandriole, enquanto outra charrete, que havia-se retardado foi mandada  a cidade de Santo Alberto, ali próximo, para chamar o Dr. Pietro Nannini, que foi conduzido à  Fazenda Guiccioli, sob o pretexto de atender a grave enfermidade da proprietária do estabelecimento para onde Anita foi sendo conduzida.  Nos três quilômetros faltantes, Garibaldi seguiu ao lado da charrete,  a pé, fazendo sombra a Anita com um guarda-chuva, protegendo-a do fustigante sol. Naquele lento trajeto, por terreno que não é estrada de  carruagem,  Anita balbuciou suas últimas palavras à Garibaldi. Falou  sobre os filhos. Disse que não tinha medo, mas que sabia que seu fim estava próximo. Pediu para Garibaldi falar com os filhos, que gostaria de estar com eles, que os amava muito, mas que  prenunciando  a hora derradeira,  escolheu estar perto do seu homem, lutando pela mesma causa. Implorou que a justificasse  perante aos filhos de como era difícil para ela ser  mãe, esposa de um homem  como ele e compelida pelo dever de consciência a ter que empunhar armas pela defesa de seus ideais.

“NÃO, NÃO ELA NÃO ESTÁ MORTA”

Logo em seguida, momentos antes de chegar à Fattoria Guiccioli Anita não mais falava,  já  agonizava  e uma leve espuma verteu de seus lábios, que Garibaldi insistiu em limpar a todo o instante com um lenço que mantinha nas mãos. Quando finalmente chegaram na Fattoria,  já estava  presente o médico Dr. Nannini, que  atendendo as súplicas de Garibaldi (por amor a Deus, salvai-a!), ordenou que fosse transportada para dentro de casa.  Garibaldi,  Leggero, Manetti e Nannini, cada  segurou um dos  cantos do colchão onde está deitada  e a transportaram para o andar superior do casarão da Fattoria, deitando-a em uma cama de ferro de um pequeno quarto.

A resistência de Anita havia atingido os limites humanos e seu combalido corpo não havia resistido a tamanhas provações. Ao ser transportada para o interior da casa , poucos minutos de vida ainda restavam-lhe. O médico, após examiná-la, resignado,  sentenciou  que nada mais podia ser feito,  que sua vida  agonizava, que estava prestes a expirar.

Eram 19:45 horas  de sábado,  dia 4 de agosto de 1849 quando a brasileira e lagunense Ana Maria de Jesus Ribeiro,  conhecida como Anita Garibaldi, grávida de seis meses, expirou.

Quando convenceu-se que o manto negro da morte havia se sobreposto às luzes que sua companheira irradiou durante àqueles dez anos de convivência, Garibaldi  não mais conteve o pranto, dobrou-se sobre a moribunda e extravasou tudo o que sentiu naquele doloroso momento. Ajoelhou-se  ao lado da cama,  segurou  com as duas mãos a face de Anita e exclamou:

“ – Não, não, ela não está morta! Não é senão um novo ataque.  Muito teve que sofrer, mas ela vai ficar boa ! Não está morta  ! Anita ! É impossível ! Olha para mim Anita !  Fala comigo !   Quanto eu perdi !”

Garibaldi sentiu em sua alma a maior e mais triste de todas as suas derrotas, e culpou-se amargamente  por não tê-la deixado entregue aos cuidados das senhoras de Cetona ou em San Marino. De nada tinha adiantado todo o esforço e o sacrifício da penosa fuga. Tinham restadas infrutíferas as dores e os temores daqueles últimos dias em fuga, que ela  havia imposto a  si  própria e ao  seu companheiro.  A fatalidade e a morte venceram a ambos!

Não foi somente Garibaldi que pranteou tão lastimável e insubstituível perda. Os compatriotas italianos, os liberais uruguaios, os farrapos brasileiros e os republicanos dos dois continentes,  que não puderam prantea-la no derradeiro instante de sua vida,  prantearam-na depois, cujas lágrimas foram convertidas em milhares de placas e monumentos que ergueram-se nos diversos países  do Novo e do Velho Mundo.

Passados os instante iniciais do trágico acontecimento, o fiel Leggero tenta retirar Garibaldi do local, pois  tinha sido informado que um destacamento austríaco anda pelas proximidades de onde encontram-se.  Garibaldi recusou-se a retirar-se do local, não queria abandonar o corpo inerte de sua amada esposa e companheira de tantas lutas.  Queria dar-lhe um sepultamento digno. Fez com que os presentes e responsáveis pela Fattoria assim prometessem. Mesmo assim, permaneceu ao lado do inerte corpo de Anita, enquanto o Major Leggero a todo instante implorou para retirarem-se do local,  pois a presença  colocava em risco  não apenas a si próprio, mas também a  todos  da Fattoria:

“-Pela Itália, pelos teus filhos, devemos partir …” –

Uma hora após  a morte de Anita,  derrotado e contrariado, Giuseppe Garibaldi foi retirado do local e conduzido por uma charrete para a localidade de Santo Alberto, dando prosseguimento a Trafila, que o levaria salvo ao exílio na América. Ao sair, porém, prometeu à sua própria consciência que um dia voltaria para buscá-la e dar-lhe um funeral compatível com a grandiosidade de sua coragem e dedicação. Prometeu sepultá-la novamente, ao lado de seu pai, em Nizza, promessa esta que efetivamente cumpriu após dez anos, antes de iniciar a segunda parte da guerra pela unificação da Itália.

Antes de afastar-se do local onde jazia o inerte corpo de sua companheira e amada,  retirou do cadáver os sapatos, o sobre-vestido, um lenço e um anel, mas levou consigo apenas o anel, deixando no quarto mortuário o restante. Anita havia chego em Mandriole já  semi-despida para seu maior conforto. Suas roupas de reserva vinham em uma  bolsa à parte. Tudo foi posteriormente confiscado pelas autoridades.

NO PRIMEIRO SEPULTAMENTO FOI ARRASTADA COM  UMA CORDA AMARRADA AO PESCOÇO

 

A promessa feita à Garibaldi, entrementes, não pode ser cumprida. Como justificar aos vizinhos, à polícia e aos austríacos os demorados atos religiosos  sem que a identidade da morta fosse revelada?  Era necessário livrarem-se do corpo, o mais rapidamente possível, pois já tinham feito a parte essencial de suas obrigações cristãs. Agora era necessário resguardarem suas integridades físicas. Assim, tão logo afastou-se Garibaldi,  Stefano Ravaglia ordenou a dois  operários braçais da Fattoria  o  clandestino e rápido enterro de Anita. Com medo e por não terem nenhuma ligação ou relação com a morta, executaram a féretra empreitada sem a mínima consideração, de maneira dantesca e brutal, apavorados por duplo medo: o de contágio, pois ignorava-se a moléstia que matou Anita, e o das patrulhas noturnas do General Gorzkowski.  Transportaram o cadáver, displicentemente jogado sobre um carro de boi de duas rodas, até meio quilometro afastado da  Fattoria. Como o rústico veículo encalhou  na areia, completaram o percurso até o local previsto arrastando a morta pelo chão, por meio de uma corda que lhe amarraram ao pescoço!  No local até hoje conhecido como Landa Pastorara, formado por um areal coberto por  vegetação rasteira, sepultam-na em cova rasa, às pressas e  escondidos pela escuridão da noite.

Poucos dias após o secreto sepultamento, uma mão feminina, já dilacerada por animais, foi  descoberta pela menina Pasqua Dal Pozzo,  aflorando do pasto ressequido. O fato foi  informado aos pais e estes comunicaram à polícia. Rapidamente correu a notícia do achado de cadáver de uma “mulher desconhecida”…

Após a exumação cadavérica, seguiu-se as costumeiras providências oficiais: laudos policiais e do clero. A necropsia revelou a existência de feto de cerca de seis meses, sem possibilidade definir-lhe o sexo, devido ao adiantando estado de putrefação.

A ação dos desalmados coveiros, tinha produzido um ferimento profundo no pescoço de Anita, que confundiu o médico legista durante a autopsia, fazendo-o declarar em seu primeiro laudo, que tinha ocorrido “morte por estrangulamento”.

Inicialmente as autoridades locais acreditaram que se tratava de um homicídio por estrangulamento, praticado contra uma mulher grávida, provavelmente da Região, motivo pelo qual foi instaurado um inquérito policial para apurar a responsabilidade criminal. Como a morte de Anita foi conhecida  por diversos operários da Fattoria Guicciolli,  poucos dias após todas sabiam  tratar-se do cadáver da esposa de Giuseppe Garibaldi, o que atraiu a atenção  dos militares austríacos que  buscavam o casal.

Estes rapidamente espalham a notícia de que a marca ao redor do pescoço de Anita havia sido provocado por  Garibaldi, que querendo livrar-se da incômoda presença de sua doente e grávida mulher, a havia enforcado. Para dar maior credibilidade ao boato que visava tão somente denegrir a imagem do condottieri, exibiram o laudo médico que afirmava ter ocorrida a morte   por estrangulamento.

Imediatamente prenderam o feitor Stefano Ravaglia e outras pessoas envolvidas com o triste episódio,  determinadas pelos militares austriacos,  pois tinha havido o descumprimento à ordem que proibia o auxílio e o socorro ao casal Garibaldi. Porém, o inquérito instaurado pela polícia local,   após diversos dias,  esclareceu o acontecido. Foram ouvidos os donos da casa, o médico  e as demais pessoas presentes no momento da morte de Anita, que safaram-se de  condenação sob o argumento de terem praticado um ato humanitário, dando guarida a uma doente, enferma, sem indagarem a identidade da moribunda. Foi um gesto católico, e pela prática desta caridade não poderiam ser condenados. Quanto ao fato de darem proteção a Garibaldi não lhes poderia ser imputada a pena pela desobediência, pois o mesmo demorou-se por pouco mais de uma hora, tendo sido retirado do local  momentos após a morte da companheira.

Meses após, prevaleceu o bom senso e a justiça: veio a absolvição dos implicados. Não houve crime de estrangulamento. O cadáver de “mulher desconhecida” era o de  Anita Garibaldi. Morreu grávida, de morte natural. Houve apenas ocultamento de cadáver, que naquelas circunstâncias é encarado como sendo por razões  justificáveis, assumidos pelos que humanitariamente acabaram sendo envolvidos pelo trágico acontecimento.

Sobre a doença que deu causa à morte de Anita, muitas dúvidas ainda hoje restam. O Dr. Pietro Nannini,  atestou que a vitimou uma “grave febre perniciosa” e mais adiante  referiu-se a uma “febre terciária simples” . Antes de chegar a Roma, Anita tinha passado por Maremma,  que havia sofrido uma invasão  de anófeles, insetos que transmitem a malária. Naqueles dias, diversos soldados foram vitimados por esta doença. A tuberculose,  lesão pulmonar, congestão intestinal e tifo das montanhas foram outras causas mortis  atribuídas por diversos estudiosos e  pesquisadores. As evidências, entretanto, apontam para o impaludismo.

SEGUNDO SEPULTAMENTO DE ANITA

 

No dia 11 de agosto, após a autópsia, ainda sendo desconhecida a identidade do  cadáver que já estava em adiantado estado de decomposição, o Juiz encarregado do inquérito, chamou  o padre Burzatti e confiou-lhe o cadáver de Anita. Estava despido e muito mutilado pela ação dos animais,  pelo bisturi da autópsia  e pela decomposição adiantada.  Imediatamente o padre solicitou  autorização ao Bispo para o enterro  dos restos mortais de uma “mulher desconhecida” no cemitério local, localizado nos fundos  da Igreja de Mandriolle. Devidamente autorizado,  foram  realizadas as exéquias e sepultada em cova simples, com uma cruz de madeira, sem nome.

TERCEIRO SEPULTAMENTO DE ANITA

Após ter sido identificado o cadáver e nos anos que se seguiram era grande a peregrinação que a população fazia ao cemitério para reverenciar à memória de Anita. Exaltando-se novamente os ânimos da população contra o Papa, alguns garibaldinos remanescentes, liderados por Francesco Manetti, alguns dos quais tiveram  participação e colaboraram para o êxito da  trafila, seqüestram os restos mortais de Anita,  colocando-os em uma urna, sepultando-a em lugar seguro e escondido.  Eles tinham o receio de que a sepultura fosse violada pelos adversários da unidade italiana,  para serem  dispersados e impedir que seus despojos fossem usados para reacender o sentimento unitário italiano.

QUARTO SEPULTAMENTO DE ANITA

Algumas semanas após, descoberto o seqüestro indevido, o padre Francesco Burzatti envidou esforços para recuperar os restos mortais, no que  logra êxito, tendo recebido em devolução a féretra caixa, mediante a promessa de  enterrá-la no interior da Igreja, em capela ao lado do altar. A promessa  foi  efetivamente cumprida.

QUINTO SEPULTAMENTO DE ANITA

Em 22 de setembro de 1859,  tão logo voltou de seu longo exílio, Giuseppe Garibaldi, acompanhado pelos filhos Menotti, Riciotti e Teresita, estava em Mandriolle e novamente  desenterrou os restos mortais da Heroína, fazendo-lhe um cortejo fúnebre, com o intuito de conduzi-los para serem sepultos em Nizza, junto a sua mãe, que havia falecido  em 1852. No caminho, uma verdadeira consagração garibaldina em romaria cívica,  passou por diversas cidades, parando para homenagens e exaltações diante de seus restos mortais nas cidades de Ravena, Bolonha, Livorno, Gênova e Nizza. Com este cortejo fúnebre Garibaldi atingiu dois propósitos:  pagou a promessa feita à memória de Anita no dia de seu falecimento, além de ter motivado e exaltado as populações por onde passou a  retomarem e prosseguirem com a  interrompida luta pela unidade italiana.

SEXTO SEPULTAMENTO DE ANITA

A cidade de Nizza e região haviam sido transferidas aos domínios da França, em pagamento dos empréstimos de guerra que este País tinha feito à Itália durante o segundo período da campanha da unificação. Sob o domínio francês, Nizza passou a ser conhecida como Nice, fazendo com que Anita ficasse sepulta em território francês. Em 1931,  por solicitação do Governo de Mussolini,  a França consentiu no traslado  dos restos mortais para Roma, onde Mussolini havia ordenado a construção de um grande monumento em memória de Anita.   Como as obras da Praça Anita Garibaldi, no Gianículo, em Roma,  ainda não estava pronto para recebê-la e receoso de que a autorização para retirada dos restos mortais fosse revogada pela França, Mussolini ordenou que os   restos mortais fossem  sepultados provisoriamente em Gênova, sendo então sepultada mais uma vez junto ao Cemitério  de Staglieno.

SÉTIMO SEPULTAMENTO DE ANITA

Finalmente,  em 2 de junho de 1932, estando concluído o monumento erigido em sua memória no Monte Gianículo, o Governo Italiano para lá a transportou, patrocinando e promovendo um gigantesco traslado fúnebre,  transformado em ato cívico dos maiores da história da Jovem Itália. Até o presente momento seus despojos  encontram-se ali depositados.

 

No mesmo dia 2 de junho, porém, 50 anos antes, em 1882,  em uma sexta-feira, faleceu José Garibaldi, às 18:22 horas,  na Ilha de Caprera – na Sardenha, Itália, com honras de herói. Ali mesmo foi sepultado!

Anita nasceu em 30 de agosto de 1821, na localidade de Morrinhos, então pertencente à cidade de Laguna, no Brasil, e faleceu em 04 de agosto de 1849, na localidade de Mandriole, pertencente a Ravena, na Itália. Em 2002, por terem sido as cidades de nascimento e de falecimento de Ana Maria de Jesus Ribeiro – a Anita Garibaldi, as autoridades de Laguna e de Ravenna celebraram um gemelaggio, considerando-se cidades irmãs.

*Adilcio Cadorin é advogado, historiador, membro do IHGSC (Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina), autor de ANITA – A GUERREIRA DAS REPUBLICAS, ALESC, 1999.